sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O Bom Assassino

Caem as folhas ceifadas no chão, no campo de batalha, espalhadas pela secretaria.
Jazem, esventradas, riscadas, cortadas e amarfanhadas pela fúria, no tumulo negro, vala comum em rede do lixo por baixo da mesa, à sua volta, por baixo da cadeira, por todo lado descansam defuntas depois da sangria desatada.
Ele em guerra com ele próprio, contra o mundo.
Olha as pobres virgens brancas, futuras vitimas da sua luta, alinhando-as sem piedade para a execução que se lhe adivinha entre os dedos.
Não se fazem prisioneiros, não se oferecem perdões.
Não há inocentes!
Ele ruge tirano, tiranamente apaixonado, rasgando com os dentes arreganhados, rosnando, sem contemplações, mordendo para todo o lado!
Cada palavra é um golpe, um dano. E o danado não para, não dá tréguas!
Cai exausto, despido da sua fúria inspiradora, musa dos seus mais pérfidos temas...
É a batalha, não é a guerra. Ergue-se de novo.
A sua luta é por amor, amor às palavras, ao veneno que destila, aos sentidos que o movem. Docemente assassinando, como bom assassino, as folhas imaginariamente finas dos dias que vão passando.

12 comentários:

Krippmeister disse...

Os teus bloqueios criativos são no mínimo interessantes.

E dessa fúria toda vem inspiração para escrever de forma gratificante. Deve ser uma das desvantagens da escrita electrónica, não há folhas para assassinar e libertar a frustração.

Beijão

antonio - o implume disse...

Quando a fúria inspiradora nos abandona, não fazemos prisioneiros, somos tiranos rugindo. Não se arranja por aí o ronronar de um gato?

Carol disse...

Hum... Eu vou ali e volto já... Ainda saio daqui esventrada ou coisa que o valha..

Salto-Alto disse...

Querida, eu suspeitava que escrevias muito bem... mas nunca pensei que fosse assim TÃO BEM!!!!
Está magnífico este texto! Parabéns, ADOREI!

Beijocas!

joshua disse...

Joaninha, o teu texto biografa-me a alma e as mãos, o coração e a mente. Tão exacto e dissecador de mim ele é, que confesso ter enrubescido como um adolescente ao lê-lo porque me estava a ler inteiro, palimpsesto da minha alma, no teu poema.

Um beijo

PALAVROSSAVRVS REX

Remelas disse...

Diagnóstico: Depressão Outonal

A Remela Recomenda: Natal

Joaninha disse...

Krippa,

Acho que é por isso que ainda hoje escrevo muita coisa à mão, é para poder ter mais mão na coisa...hehehe.

António,

Gatos? aqui? não...Mas cães temos, pode ser?

Saltinho,

Obrigada querida :)

Joaninha disse...

Joshua,

Coraste? Cool :)

Ramela,

O texto não é novo, tem 2 meses, mas o natal é sempre bom, nisso tens razão :)

Blondewithaphd disse...

É furiosa criatura!!!!! Até parece que a escrita é uma actividade pacífica, não é? Muito bem retratado, sim senhora! Os escritores são uns tiranos e uns pobres coitados!

alf disse...

Fooogo! Que aconteceu à Joaninha? Muda de nick, esse não é nome de guerreira!

Está simplesmente fabuloso este texto.

Joaninha disse...

Blonde,

Agora disseste tudo, tiranos e pobres coitados...
beijos

Alf,

As Joaninhas são predadores vorazes ;)
beijos

Perla disse...

O que é que se pode dizer de um texto destes?! Isto não é assassinio, uma batalha... é mesmo uma luta, num magnífico momento de inspiração!