Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Serenidade.

Pois a serenidade é coisa que não me assiste.
Diziam que viria com a idade, a idade vem vindo todos os dias. A serenidade, nem a vejo nem a viste!

Disparatam completamente insistindo – “O conhecimento cresce com o tempo, Ficamos mais maduros, sabios!

Pois, eu digo, o tempo vem passando, já o conhecimento esse nem aumenta, nem se mexe!

Qual maturidade qual quê!

Por esta altura devia ser uma mulher serena, sábia, de bem comigo e com os outros e já agora com algum sentido de humor, e não uma miúda com rugas na cara sarapintada e expressão toda cheia de linhas inesteticamente reveladoras do seu descontentamento interior e não só!

E nem me venham com a conversa que temos que ser nós a procurar o caminho!

Então afinal tenho de fazer tudo sozinha? Mas isso não é suposto ser uma coisa natural!?
Querem ver que, mais uma vez, como sempre, tenho de trabalhar para isso...

Não tenho de trabalhar para me caírem as rugas na testa essa é que é essa! Todos os dias nasce mais uma, juntamente com dois cabelos brancos!

E dói aqui e dói ali, e vai ao médico, e tal e tal! Irra! E depois, paga impostos, faz isto e mais aquilo. Responsabilidades é quantas quiserem, é para mim e para 10 iguais! É normal, faz parte, crescer é isso mesmo!

Se é, quem raios é que inventou essa coisa do crescer!?

Mas está tudo tolo!

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Ando em busca

Ando em busca da minha inspiração. Daqueles meus momentos solenes de escrita emotiva, sentida. Toda ela despida de pretensão, muito eu, muito minha.
Quero de volta os dias de encontro comigo mesma, em que os sentimentos me afloravam aos dedos em cérebro fervia, naquele exercício masoquista, egoísta e tresloucado que é para mim a escrita. Cheio de engodos, vómitos de palavras, dores, eram sempre carregados de dores . O isolamento maravilhoso, a convulsão, o desespero! Não, minhas mãos não te acompanham...Derreada na cadeira frente ao lume, como quem correu a maratona no espaço de um parágrafo.
O freio a mim não me assenta bem, tolhe-me a inteligência, rói-me as entranhas...
Adoro sonhar, adoro inventar, adoro sofrer imaginando os fins mais trágicos, a felicidade de enlouquecer.
Tenho saudades do meu mundo. Vá lá, deixem-me sonhar...

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Tormenta.

O silêncio instala-se matreiro, sem se saber como. Pára tudo, não bule folha, não se ouve um ruído. A pele irisa-se, arrepanha-se, o corpo entesa, os dentes serram. Cheira-se-lhe no ar o odor intruso.

O ar contrai-se. O espaço encolhe-se. O tempo que é sempre mais lento, suspende-se...
Inspira-se uma ultima vez, última inspiração da alma antes do vazio, e enfrenta-se.

Já sem tempo, já com silêncio, já sem certezas, no mar lamacento, peganhoso. Luta-se. Garras, unhas. Esgravata-se, agarra-se, sobrevive-se.

Longa, longe nos leva a torrente. Caos de dor, de escravidão. Sangue derramado de cada um. Um por si e por si só. Numa solidão de companhias bravas, raras, lutando por si, com os outros, sem lutar por eles mas ainda assim lutando por todos.
E então...Vede como se limpam as águas. A água sempre se limpa, o monstro sempre se amansa...

Pingos de água, resquícios da tormenta, fazem som nos telhados destruídos. O silêncio quebra-se.

O espaço cresce, o ar expande-se e a alma novamente respira, inspira, expira serena.

Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

O estranho fenómeno do Natal.

Lareiras acesas, de chamas quentes cor de laranja, saltando fagulhas para o soalho de carvalho chamuscado. Pisa brasa. Caruma no cabelo, nas carpetes e farpas de lenha na camisola, cheiro a fumo, carvão preto no nariz.
Rebolar, rebolar nuns estranhos confortos, de tapetes com pó e cozinha de pedra. Fogão a lenha carbonizado e partido pelos milénios de abusos natalícios, de avental ou sem ele, juntando à madeira nódoas de ovo, de farinha, de massas e cheiro a fritos, soltando sonhos, leite creme, arroz doce, bolo rei...Bacalhau nadando bruços no azeite, embrulhado em couve, com batatinha...Meninas pequeninas saltitantes, pulando no chão velho e oscilante, meninos correndo abanando fundações. O tilintar dos copos na cristaleira, os cães dormindo encostados às lareiras.
Cozido, cozido no fogo da sala grande, panelas de peso, de gigante, panelas de prata com o fundo preto, limpo a palha de aço, com carnes borbulhando, enchidos largando cheiro, largando sabor, colorindo a água de sangue. Os gritos da mãe, um pouco agudos, acompanhados ao fundo pelos uivos do vento que se entranha pelas frestas e arestas de uma casa grande e velha.
Maridos com largos sorrisos, olhares de irmã mais velha no meio dos gritos e de risadas nada histéricas.
E no meio, eu, que não gosto de barulho, não gosto de cheiro a fritos, não gosto do cabelo sujo e de roupa velha...Eu que no fundo não gosto de nada disto...Não gosto de cozinhar, sou meia alérgica ao pó, e detesto de morte o frio...Sinto-me tão em casa, sinto-me toda eu, eu mesma. Sinto que amo tudo aquilo, e que tudo aquilo sou eu. E assim é. Nunca entendi este estranho fenómeno do natal. Mas deixa-me, quando tudo se aquieta e as brasas estoiram na lareira num final de festa divino, a pensar seriamente.

- Será que não gosto mesmo de barulho, ou só simplesmente um pouco pateta?

Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

Sem nome.

Suave...

Vem, suave.

Suavemente te escorram dias aos milhares,

Com caminhos iluminados de felicidade.

Devagar...

Abre os olhos devagar,

Já é dia!

Quente...

Aquece lentamente.

Sejam serões cálidos de Outono dourados,

Com caminhos serenos de cumplicidade.

Devagar...

Fecha os olhos devagar.

Já anoitece!

Caminha...

Vem, firme.

Seja ela uma vida sem magoa,

Com actos de bravura e bem vivida.

Devagar...

Deixa o corpo ir devagar...

Já o fim se principia.

Devagar...

Consome a vida devagar.