quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Falar de ti.


Gostava de falar ti.
Mas falar de ti é-me muito difícil. Porque falar de ti é tão diferente de falar de mim.
Gostava de descrever-te revelando-te. Mas não posso, porque não conheço as palavras que te descrevem nem as que te revelam e não sei onde procura-las.
Por isso, sempre que começo a falar de ti, falo de tudo o resto. Falo do mar, que eu conheço e do tão fundo que ele é. Do universo, que é negro, de quão infinito ele é. Do vento que corre, do sol que queima, da chuva que mata a sede da terra que tanto ama. Mas sobre ti, sobre ti não digo nada e tudo isto me parece pequeno.
Gostava de falar de ti, mas acho que falar de ti não chega.
Por isso ando à tua volta como um pássaro tonto, esperando que me dês ar nas asas.
Tu limitas-te a amar-me. A mim que sou um emaranhado de imperfeições ridículas, uma manta de retalhos de falhas, erros e nós cegos, que se mantêm unida pela seda dos teus olhos.
És...
Gostava de falar de ti, mas não sei como e não quero de novo falar do mar, nem do vento, nem do sol, nem do verde das matas da terra, nem da vastidão do universo, é inútil, já foi feito, é banal.
Quando me sento, no jardim, rodeada de montanhas, rodeada de oceano, com o sol morrendo aflito sob o enorme peso do céu nocturno, o vento arrastando o cheiro daqueles verdes misturando-o com a maresia, nesse momento, nesse exacto momento quase, quase sinto que um dia serei capaz de falar de ti, mas quando pego na caneta nada sai.
Será que a tua mais perfeita descrição é mesmo o absoluto silêncio?
Silêncio...
Considera-te pois descrito.

36 comentários:

la chica de las biscotelas disse...

Lástima que no sé Portugués y solo intuyo lo que dices.

Joaninha disse...

La chica!

Bem vinda :)

Eu tambem não falo espanhol, mas entendo. Volta sempre!

Abraço.

Krippmeister disse...

É um texto cheio de emoção Joaninha, isso é que é escrever com o coração nas mãos. Neste momento alguém tem o ego do tamanho do mundo.

De qualquer maneira foste feliz em ter posto a fotografia da boazona, fica sempre bem seja em que post fôr : )

alf disse...

Muito interessante! Gostei muito de ler isto

Tu não consegues falar dessa outra pessoa porque ela não precisa que fales dela, ela gosta mesmo é de te ouvir falar do mar, das dunas e dessas coisas todas de que tu falas... ela gosta de ser o Silêncio que te escuta... Será??

antonio - o implume disse...

Estou com o Alf, existe magia na tua descrição do silêncio.

Carol disse...

Joaninha, este foi, sem dúvida alguma, dos textos mais belos que já li!

Adorei, porque consegui sentir esse amor infinito em cada palavra, em cada linha que escreveste!

André Couto disse...

No silêncio dos olhos

"Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?"

José Saramago
Os Poemas Possíveis
Lisboa, Caminho, 1999

Salto-Alto disse...

Que sorte! eu também queria ser descrita assim! :) Está liiindo!

Adorei a parte "Mas sobre ti, sobre ti não digo nada e tudo isto me parece pequeno". está lindo!

E a foto fenomenal! Concordo com o Krippmeister, é uma foto de uma boazona! ;p

Beijoca!

joshua disse...

Não há dúvida que este teu discurso rondou as esferas do sublime. Sinceramente.

Pelo seu lado, há coisas que o Implume planifica, plastifica e constrói como um brinquedo Lego no seu En-Levo, mas que tu, com mais naturalidade e infinitamente menos pompa e desfile, obténs claramente.

O Canário do Implume, nesta sua fase narcísica, não poderá compreender que o único caminho é ser humilde e autêntica como tu.

Um beijo, Caríssima Joaninha! Estou a par da Faculdade! Congratulations from the bottom of my Heart!

PALAVROSSAVRVS REX

Peter Mary disse...

Quando alguém fica assim debaixo da pele, dentro de cada um dos nossos penamentos... estou de acordo fica dificil falar ou descrever o que quer que seja, fica tudo muito pequeno... é verdade.

Bjs

JPVale disse...

Um encanto!

Joaninha disse...

Krippa: Obrigado, eu gosto de escrever com o coração nas mãos, mas é um exercicio doloroso às vezes.
beijos

Alf: É bem possivel que seja :) Obrigada.
beijos.

António: Obrigada.
beijos

Carol: Vindo de uma poetisa do teu calibre isso é um elogio e tanto.
beijos

Joaninha disse...

Saltinho: Obrigada, tenho certeza que há por ai alguem que te descreve desta maneira ou ainda melhor.

REX: OK, atenção! meninos atenção. Depois deste comentário vindo do mais poderoso reptil das letra quero muito respeitinho! Obrigada meu amigo.
Ás vezes colocar a alma em cima da mesa é dificil mas é a única maneira.
beiijos

JP: é sempre bom ter-te por aqui :)
beijos

Joaninha disse...

Peter,

É quase impossivel.
Obrigada pela visita.

bjs

Karin disse...

Concordo. Quando se ama, qualquer coisa que se diga para sublinhar esse sentimento soa sempre a falso/piroso.
É por isso que não sou romântica nem aprecio 99% da poesia.
bjs

Rosa disse...

Lindo, lindo... e a fotografia também. Beijinho grande, prima querida!

Carol disse...

Poetisa, onde? Não vi a tipa em lado nenhum... ;) És uma querida! Obrigada pelo elogio.

Joaninha disse...

OLha olha a Carol a fazer-se se desentendida. Palerma!

Beijos


Rosinha meu mel,

Obrigada!

beijões

Rui Figueiredo Vieira disse...

Muito bom... Muito bom mesmo, belo texto, muito bem escrito, muito bem conseguido. Lindo!

Krippmeister disse...

Olha a Rosinha :-)

Blondewithaphd disse...

I also think that words break the absolute, marvelous, all-saying silence! Silence can be worth all words!

Ferreira-Pinto disse...

Caramba, que ando eu a perder que não costumo aqui poisar?
Belo texto, sim senhor ...

Quanto à pergunta que uma certa "joaninha" voadora fez a propósito de um poiso em Âncora, a resposta é fácil ... férias, fins de semana, caminhadas, "bodyboard" e o tal peixinho ... ah, e em Caminha esplanadas ...

Carol disse...

Passei só para reler...

Bom fim de semana! Beijinhos.

Carol disse...

P.S.: Já cá anda o meu mano também...

Ainda havemos todos de comer umas bolas de Berlim de Âncora ou, quiçá, ao marisco dos nuestros hermanos! ;)

Joaninha disse...

Blonde,

you are correct.
There are no words powerful enough to transmit the comfort and tremendous beauty of that silence. Silence cannot be described by mere words.

kisses pra ti ;)

Joaninha disse...

Carol,

Parece que sim, ainda acabamos todos à mesa do café, como antigamente :)

beijos linda.

Joaninha disse...

Ferreira,

Está explicado, eu sabia que devias ser boa pessoa ;) (e não era só por seres irmão de quem és)

Obrigada pela visita

beijos

Perla disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Perla disse...

Pois é, Joaninha (fiquei meio intrigada com o coment da Joana) afinal era conhecida ;)
e quem me linka fica automaticamente linkado.

Agora descrever aquela pessoa que nos é tão especial... envolta de silêncio ou nem tanto, tb acho que por melhor descrição que se tente fazer, fica sempre muito aquém... como tal falaste e disseste muito bem!
Beijos e bom fim-de-semana

Tiago R Cardoso disse...

Gostei deste belo silencio...

[_David_] disse...

Gostei das tuas palavras!

antonio - o implume disse...

Só agora reparei que o magneto-poderoso-reptil aproveitou o teu texto para zurzir as suas mágoas na minha escrita... o teu momento de magia apenas lhe tocou ao de leve!

joshua disse...

Não, Joaninha, tocou ao de pesado, por isso é que me pareceu necessário contrastar o teu texto intenso com as produções de régua e esquadro com que o meu Emplumescente Amigo, canário de cauda deplumada, esquadrinha a sua obra literária (que todos desejamos seja um sucesso e que por isso mesmo temos o dever de castigar para que melhore e se intensifique).

Ora se ela, a obra literária do Implume, não me faz cócegas e a tua fez, se a dele não me espanca a sensibilidade e a tua a esbofeteou e agrediu no bom sentido, claro, estamos conversados.

All in all, o nosso Implume precisa de todo o mimo he can get. Cabe-me pô-lo na linha e resistir-lhe aos avanços Pepe le Pew que ele me faz a mim e à minha literatura, nas suas palavras, «com potencial», vê lá tu.

:) beijo
PALAVROSSAVRVS REX

Krippmeister disse...

Sejam amiguinhos.

Joaninha disse...

Rex,

Eu fico enrubescida com os teus elogios. Até porque se a escrita que me espanca (claro está, no bom sentido) é mesmo a tua.

Mima-o que ele está bem a necessitar :)

Olha quando eu crescer também quero ter uma escrita como a tua "«com potencial», vê lá tu."

antonio - o implume disse...

Pelos vistos só falta potencial ao sáurio-reptil...