sexta-feira, 5 de junho de 2009

Excerto II

Lembram-se daquele excerto de um conto que aqui postei há pouco tempo?
Prometi na altura que colocava mais uns bocadinhos, pois aqui está.
Isto não está por ordem, vou tirando bocadinhos como calha. Espero que gostem.

"As mãos velhas enrugadas poisaram no ombro betonado do rapaz.
- Calma amigo sou da paz.
Os olhos castanhos cintilantes do moço musculado encontraram os olhos gastos do velho que tinha um sorriso engraçado.
- Que me queres tu, homem de Deus, não vez que não estou para conversas.
- Vejo sim jovem amigo, tens a vida de candeia às avessas.
A brisa húmida do mar enrolava canudos novos no cabelo espesso do jovem, dando-lhe o aspecto de leão com juba farta.
- Foi o amor que te bateu bem sei, com a forca de uma chibata.
O jovem mordia o lábio escuro, com os dentes pérola cintilando contra o fundo.
- Foi um carro negro e esguio um só dia, que me levou a luz, a lua, o guia.
Olhava a calcada perfeita que se estendia longa, como ela infinito a dentro.
O velho respirava pesado, tentando manter o ritmo dele, acelerado pelo o horário do comboio que não espera por ninguém.
- Mas devagar meu jovem, assim não te consigo acompanhar.
- E porque me queres acompanhar homem de Deus, deixa-me estar.
- Porque sei o que sofres, quero-te ajudar.
-Então conta-me o quanto sofro, porque sofro tanto que nem eu próprio sei o quanto sofro.
Duas lágrimas tão salgadas como o mar que se espreguiçava contra a areia branca da baia rolaram pela cara quadrada, deixando um rasto brilhante na pele baça pelo pó da argamassa.
- Sofres muito sim eu sei, dessa dor também eu padeci, conheço-a de cor porque a vivi.
- E porque achas tu que me podes ajudar? Não me digas tu também que há-de passar.
- Não te digo e desde já te salvo desses desenganos, essa dor não sara com o passar dos anos. Digo-te eu que durante todos os anos que já vivi, a continuo carregando."

9 comentários:

antonio - o implume disse...

As dores que carregamos não são a melhor companhia!

Rui Figueiredo Vieira disse...

Bombástico!!!!!

Ninja! disse...

Fizeste tu muito bem em meter mais da história! Não te esqueças de depois postar mais! :P

Krippmeister disse...

Lindo como de costume migalhinha. Inspirada.

Chuac

alf disse...

muito belo. Como é que alguém que anda às voltas com o código civil consegue escrever coisas destas... ou isto já foi escrito antes do código civil se ter atravessado no teu caminho?

Joaninha disse...

Genti, obrigada :)

Alf,

Este é bem anterior ao codigo civil :)...Ultimamente a coisa está dificil ;)

beijos

Abobrinha disse...

Está lindo Joaninha! Mas eu estou a contar que as dores passem com o passar dos anos, porque a minha tolerância à dor é muito baixa.

Rafeiro Perfumado disse...

Só não gostei do "ombro betomado", dá a sensação que o moço trabalhava nas obras, ou parecido... ;)

Beijoca!

PS: não actualizas o blog tenho de ir à caça de textos ainda não lidos

Joaninha disse...

Rafeiroso,

Já entendi, tenho de por aqui qualquer coisa nova né?

beijos