sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A solidão By Joaninha

Ele era uma carta escrita à pressa em papel de recado, ela tornou-se esquecimento no papel amarfanhado.

Ele seguiu a sua vida, a dela ficou parada. Sentada na varanda, com as mãos coladas à sacada, os olhos profundos presos no décimo andar do prédio em frente.

O tempo começou de passar, lesto, no género gelado do vento em dias de invernia serena, com o sol em luz plena que não aquece.

Ali ficou, por horas, que foram meses. Foram anos, que enfrentou como séculos, que mais pareciam milénios.

Nas juntas da tijoleira nasceram ervas pequenas, daninhas, danadas. Hera começou de se lhe enrolar nos pés, mas ela nada. A natureza acabou cobrindo-a toda, na sua pujança completamente indesejada, dando-lhe os tons alegres de verde e de rosas, em contraste com a sua cara agonizante.

A hera assim como nasceu, murchou, a erva ainda antes de secar deu para rebentar em árvores, que deram frutos, que deram árvores, num ciclo que foi passando até que se findou.

Depois veio o dilúvio, e de seguida o dilúvio foi. Ela sentada em silêncio, a cara transtornada, como uma condenada, não se mexeu. De seguida sol inchou, contorceu-se como uma grávida e finalmente rebentou, dando à luz uma nuvem enorme de dor...O mundo acabou.

O sossego era medonho, no vácuo negro a existência não existia.

Ela, na varanda, com as mãos presas à sacada, incapaz de enfrentar o vazio, aquela dor varada, aquele não.

Até que um dia, muitos dias, muitos anos, mesmo séculos que para ela foram milénios, aconteceu chover. Uma gota desgovernada caiu em cheio na sua cara. Uma só que, sozinha, escorria céu a baixo, sob o peso do seu miserável isolamento, tocou-lhe a pele e...O olho dela piscou.

A pequena gota então acariciou-lhe a face, num toque cúmplice e o seu toque produziu um som. Foi o ribombar da esperança, barulho violento que resulta do choque de solidões.

11 comentários:

Krippmeister disse...

Lindo, mas ao mesmo tempo assustador. Parabéns lindeza.

Perla disse...

Gostei muito de te ler.
Há vários tipos de solidão, aquela que nós próprios buscamos e que só nos faz bem, quando procuramos o silêncio, quando buscamos a água nesse deserto...
e a que descreves que lesa, magoa e, quantas vezes, mata aos poucos. nesta a água é salgada.

Beijos

Ninja! disse...

Escreves muito bem, gosto sempre imenso de ler!

Caramelo disse...

Gostei.Está lindo!!!Mas é um tema realmente triste...
É impressionante a forma como os teus textos me prendem e me deixam sempre ansiosa por mais...

Joaninha disse...

Krippa,
Assustador realmente, certo tipo de solidão é verdadeiramente assustadora. bjs

Perla,
Concordo e assino em baixo. bjs

Ninja e Caramelo,
Muito obrigada pelos vossos elogios.

beijos

alf disse...

hummm... será muito bonito mas não é para aí que é bom olhar. Arriscas-te a perderes-te numa cova qualquer. Estás a olhar para a Sombra em vez de olhares para a Vida.

Dá antes um saltinho por África, onde «bate o coração da Mãe Terra» - experimenta aqui:

http://efeitoborboleta2010.blogspot.com/

Joaninha disse...

Alf,

Nesta pequena antologia que a que me resolvi dedicar, com a ajuda de artistas convidados, resolvi focar 3 formas de olhar 6 diferentes situações.

3 positivas, 3 negativas...POr enquanto estamos nas negativas.
Esta é apenas uma forma de solidão, como diz a Perla há outras. A solidão tanto pode ser boa como má.

Aqui é má, mas momentos há em que é gloriosa.

beijos.

Blondewithaphd disse...

Amiguita, next time deixa-o a ele plantado a ver se gosta e ela que siga a sua vida. Ora não!

miguelav disse...

és brilhante

Abobrinha disse...

Adorei...

alf disse...

Ah, assim fico mais descansado! Nesse caso, está brilhante!