Tenho a minha sanidade na ponta da navalha. Navalha insana que inclina o fio em direcção ao infinito esquecimento.
Tenho a minha sanidade frente à ponta da ponta e mola, ponta e mola assassina que se encosta ao fio frágil da minha realidade.
Quero enlouquecer na verdade, porque louca seria a minha felicidade, mergulhada no meu adorado entorpecimento, deitada, rendida, na sua irrealidade.
Tenho os meus pés pisando em brasas, e os meus olhos fugindo para dentro, quero endoidar-me, inundar-me e no fim desaparecer calmamente debaixo do manto sublime da minha loucura, saindo do palco sem culpa, sem arrependimentos nem vontade de ficar mais um pouco.
Quero ir-me sem saber que me fui, indo apenas sem cuidados, ir-me em braços, apoiada no total desconhecimento da caminhada.
Quero que se fiquem por cá sem mim, felizes por ter-me tido por cá. Quero que se fiquem por cá esquecendo-me devagar, tão devagar até que de mim sobre apenas a sensação agradável de um brisa fresca no verão infernalmente quente.
Quero enlouquecer para não ter que vos dizer que na verdade já me fui faz tempo, fui há tempo de mais para continuar por cá embalada no balançar da minha iminente demência.
Deixo-vos a todos o meu mais doce, agradecido abraço.
Prometo-me que um dia volto, ainda que louca, ainda que insana, ainda que demente e doida, e escorro por folhas e folhas toda saudade que me comerá os dias, pois sim, que o louco também sente saudades, saudades de quê não sabe, mas sente-as, são uma insana, ilogica, tragica realidade.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Carta ao Dr. Dinossauro Tirano,

Caríssimo e prezadíssimo Dr. Cheio de Dentes Aguçados,
Espero que esta missiva o encontre bem, rodeado de dodots cheirosas, fraldas, e gaze para o fresco umbigo.
Por essa maravilhosa novidade lhe deixo os meus mais sinceros e sentidos parabéns, mais sabendo o quanto esse coração de réptil de sangue frio se sente e recente diante de toda essa pequena e dominante doçura. Imagino-o submerso nesse mar imenso de ternura de dentes arreganhados em êxtase de prazer paterno. Deixo também um abraço à sua doce senhora, que de certo brilha mais ainda do que antes, também ela, e mais ainda, imergida nesse mesmo êxtase em que o meu caríssimo amigo se encontra.
Não o maço porque sei que o tempo, neste seu momento, é sempre mas sempre tão pouco que se não lhe prestamos total vassalagem perdemo-lo, e ele é irrecuperável.
Escrevo apenas para lhe agradecer. Assim, obrigada meu caro, pelo pequeno empréstimo dos seus conhecimentos, pelo lustro puxado a um trabalho tão insonso, e pela ternura dispensada a uma insegura figura um tanto estranha e desconhecida.
Sem este seu apoio conhecedor, sem o seu pequeno atiçar de ideias, não teria por certo tido tamanho reconhecimento.
É vossa excelência sem duvida tiranamente bom, mesmo quando finge morder cruelmente...
Desta forma me despeço, desejando-lhe felicidade, dessa total e absoluta, dessa que se deseja quando se tem para além do respeito, uma sincera admiração.
JCC
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
O Corcunda de Notre Dame.

Olho eu só daqui de cima o mundo,
Como quem olha d’um poço fundo.
Olho, como quem olha para o céu.
Olho em baixo, a bela menina do véu.
Ciganinha que abana a anca em graça,
Dança com o povo no meio da praça.
E eu tão só, do cimo da torre a vejo,
Com vergonha, ruborizado de desejo.
Nada nem ninguém me quer, me acode
Arrancando-me à solidão que me morde!
Enquanto a ciganinha lá em baixo dança.
Fazendo bailar a sua negra, grossa trança.
Entre as colunas negras o sol doirado
A minha figura triste, do meu desagrado.
Suspiro cortante, triste, só e revoltado
Escondo-me como segredo guardado.
Que sou, serei sempre,
na alma de toda a gente
Monstro feio, deformado,
Escondido por padrasto,
Pai, ou homem malvado,
Que espera e anseia,
Chora e urra por ser amado!
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